É preciso conhecer a cultura indígena para respeitá-la

Indigenista e orientador do projeto de Etnoturismo da Tekoá Brasil, Fernando Schiavini ressalta legado dos povos ancestrais.


O indigenista Fernando Schiavini, durante visita a Aldeia Manoel Alves (Emerson Silva)


O projeto de turismo indígena desenvolvido com o povo Krahô, especialmente na Aldeia Manoel Alves, distante 8 km da cidade de Itacajá (TO), nasceu de uma demanda da própria comunidade, interessada em organizar e profissionalizar as visitações. Há pouco mais de 3 anos, o indigenista Fernando Schiavini apresentou o desafio à Tekoá Brasil, operadora de turismo sustentável que abraçou a causa e, juntos, elaboraram o projeto com base no respeito às tradições Krahô, na sustentabilidade e na garantia de um receptivo de qualidade.


Em função da pandemia de Covid-19, pelo segundo ano consecutivo comemoraremos o Dia dos Povos Indígenas em casa, mas aproveitando a data, convidamos Schiavini para novas reflexões sobre a importância da compreensão e preservação dos nossos povos ancestrais. Confira abaixo:


P - Você tem um trabalho de décadas com vários povos. Diante de sua experiência, quais são os maiores desafios da atualidade na convivência entre indígenas e não indígenas?


F.S. - O preconceito sempre foi e continua sendo o principal desafio a ser ultrapassado para que a sociedade brasileira respeite o imensurável legado dos povos indígenas à genética e à cultura brasileira, sem contar a imensa contribuição desses povos para a preservação do meio ambiente em nosso País. Infelizmente, esse preconceito que vinha arrefecendo nas últimas décadas tem ficado mais evidente nos últimos tempos, devido às posições altamente preconceituosas dos atuais governantes brasileiros.


P - Qual a importância da preservação da cultura tradicional para os povos indígenas?


F.S. - As culturas indígenas são umas das bases da cultura geral brasileira, juntamente com as culturas negras e europeias. Rejeitá-las significa renegar nossas próprias raízes. Agora, quem preserva suas culturas são os próprios povos indígenas, à sociedade brasileira cabe respeitá-las e valorizá-las. Os povos indígenas já descobriram há muito tempo que, se com suas culturas preservadas são discriminados, muito mais serão se as perderem. Estariam condenados a serem colocados nos patamares mais baixos da sociedade, transformando-se em verdadeiros párias sociais, que precisariam esconder suas identidades étnicas para sobreviver, como já aconteceu no passado com muitas etnias.


P - Costuma-se falar que o povo Krahô é o que melhor tem preservado sua cultura, entre todos os povos do Tocantins. O que os diferencia dos demais povos, em sua opinião?


F.S. - Observa-se que povos de língua “Jê”, aparentemente, preservam mais suas culturas milenares. Talvez isso ocorra devido às suas elaboradas organizações sociais, que têm como umas das principais bases mantenedoras da unidade tribal, a ritualística. Sem rituais, ou seja, sem as festas tradicionais, a unidade se esfacela. Ao contrário, se os rituais se realizam conforme as tradições, a unidade se reforça, formando assim um “círculo virtuoso” das suas culturas. Agora, é preciso considerar que cada povo sofreu e sofre processos de contato diferenciados, com mais ou menos impactos em seus costumes e estilos de vida.


É preciso procurar conhecer essas diferenças e a enorme diversidade cultural existente em nosso País, não somente indígena. Só se respeita o que se conhece.

P - Por que vivemos em uma sociedade onde é tão difícil aceitar diferenças culturais e o que o não-indígena pode fazer para evitar este comportamento?


F.S. - O sistema capitalista quer que os seres humanos acreditem que eles possuem apenas uma origem, um deus, uma cultura, um destino. Uniformizando, fica mais fácil influenciar, dominar, controlar e vender. Assim, as culturas diferenciadas, que desejam se manter assim, são quase automaticamente consideradas arcaicas, atrasadas, ultrapassadas e daí, para serem consideradas empecilhos ao “progresso” (que só poderia acontecer se todos forem “capitalistas”), é um pulo. Acontece que as sociedades indígenas não são capitalistas, eles são tribais, ou tribalistas, se você preferir. Elas não procuram no lucro a razão do seu trabalho, mas buscam a subsistência física e a manutenção de seu universo ritualístico. Aos não indígenas, é preciso procurar conhecer essas diferenças e a enorme diversidade cultural existente em nosso País, não somente indígena. Só se respeita o que se conhece.


P - Você possui livros tratando de sua trajetória pessoal entre os indígenas e também com artigos abordando várias temáticas relacionadas às questões indígenas. Agora está prestes a lançar sua próxima obra, "O Tribalismo". Pode fazer um resumo sobre este novo trabalho?


F.S. - De fato, deverei lançar neste ano meu novo livro, denominado “O Tribalismo”. Há pelo menos 30 anos me despertei para o tema e o estou escrevendo há cerca de 6 anos. É uma obra ousada, fruto da minha convivência com povos indígenas, observações e pesquisas, que tentará provar que as sociedade tribais (ou indígenas) são muito mais evoluídas, resistentes e resilientes, pois evoluem há, no mínimo, 70 mil anos A.P. (Antes do Presente), em oposição ao sistema capitalista, que consolidou-se há apenas cerca de 600 anos e a outros sistemas ainda mais recentes, como o socialismo e o comunismo. Mas a obra vai além disto. Ela pretende dar todas as informações e direcionamentos para que seja possível a formação de tribos estruturadas em qualquer lugar do mundo ou por meios virtuais, ou, ainda, implantar condomínios e bairros populares usando elementos dos sistemas tribais, inclusive com elementos arquitetônicos e urbanísticos. A publicação dessa obra foi objeto de um projeto aprovado por edital da Lei Aldir Blanc, da Adetuc/Governo do Estado do Tocantins.


71 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo