Mulheres em roda: o olhar de mulheres indígenas sobre si próprias.

Atualizado: Fev 13

Fonte: Gisele Motta – Jornalista

A fala feminina, tanto na sociedade ocidental quanto nos povos tradicionais, é historicamente silenciada. Conversando com mulheres de diversas etnias, indígenas e não-indígenas, podemos pensar algumas perspectivas.

Para Kayulu Yanalapiti, a Associação de Mulheres é uma oportunidade para que as mulheres discutam suas próprias questões, que eram rotineiramente ignoradas nas rodas de discussão dos homens. “A mulher indígena parecia estar invisível, era como se nós não pudéssemos ajudar os homens nas questões políticas importantes. Assim como na sociedade não-indígena, nas aldeias existe muito machismo. Sentíamos que precisávamos nos organizar internamente para acompanhar essas discussões. Fomos desacreditadas, riram da gente. Foi difícil, mas conseguimos”, diz a presidenta.

Kayulu conta que a Associação vem trabalhando especialmente na formação de lideranças femininas indígenas e também na capacitação de mulheres em audiovisual. Elas têm como objetivo contar suas histórias através de uma perspectiva feminina. “Temos uma preocupação com a perda de nossos cantos e histórias. Queremos registrar para os jovens e crianças. Os brancos têm livros, internet para registro. A nossa memória está com os idosos e eles estão indo embora. Nossa educação baseia-se na família. Os brancos colocam seus filhos em creches, escolas, universidade. Nossos ensinamentos são passados dentro da família e da comunidade. O indígena tem que ir em frente, mas também se manter no passado para preservar sua cultura”, completa a líder.

Ela explica que outra grande preocupação é a saúde. As mulheres discutem bastante sobre alimentação e sobre doenças que vem surgindo por causa do contato dos indígenas com a sociedade branca. Doenças desconhecidas como hipertensão e diabetes tornam-se cada vez mais comum. “Não podemos proibir ninguém de consumir produtos industrializados, mas tentamos conscientizar como usar esses produtos. É um trabalho de formiguinha, mas é maravilhoso ver o empoderamento das mulheres. Muitas vezes os homens não entendem nosso trabalho, acham que não tem resultado porque não compramos um carro, um barco, combustível... Mas para nós o resultado é ver mulheres falando e tendo fala. Ver mulheres jovens falando na frente de homens e sendo ouvidas”.

Sem território não temos vida, não temos cultura

Maial Paiakau é a primeira mulher indígena graduada em direito de uma aldeia Kayapó. A advogada trabalha na Secretaria Especial de Saúde Indígena. Ela teve como grande referência de luta na própria família. Sua tia, Tuiré Kayapó, nos anos 1980, teve uma ação que repercutiu nacionalmente: colocou um facão no rosto de Antônio Muniz, diretor da Eletronorte, empresa que na época buscava construir em Altamira (PA) a Hidrelétrica de Kararaó, atual Belo Monte, que teve sua construção finalizada.

Para Paiakau, a questão indígena central é a manutenção de seu território. Para isso, é preciso, em especial, garantir os direitos já conquistados e impedir os retrocessos como o Marco Temporal – como ficou conhecida uma tese político-jurídica segundo a qual os povos indígenas só teriam direito às terras que estavam sob sua posse até 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal. A lei suprema brasileira, neste momento, finalmente versou sobre os direitos indígenas, dizendo que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. Esse parágrafo vem gerado controvérsias no sentido que, a rigor, todo o Brasil é tradicionalmente o território indígena. Porém, em conflitos sobre demarcação, para justificar a desocupação ou impedir a ocupação por indígenas de certos territórios, justifica-se que só são terras indígenas as demarcadas até 1988.

Traduzindo a fala de sua tia Tuiré, que somente fala a língua Kayapó, Paiakau informa essa grande preocupação do povo indígena com suas terras. Se antes os indígenas percorriam todo o território brasileiro, cada vez mais eles são expulsos e assentados em territórios específicos, o que não é compatível com seu modo de vida. Ainda assim, garantir esses territórios vem sendo o mínimo que pode ser feito. Tuiré demonstrou uma grande preocupação não só em falar pelas mulheres indígenas, mas por outras pessoas que sofrem preconceito e opressão, como os negros, os ribeirinhos, os migrantes.

Feminismo Indígena?

A advogada reafirma a necessidade cotidiana e constante da luta das mulheres indígenas, que não é só pelas mulheres, mas pelos homens, pelo ambiente, pela natureza, pelas crianças. Para ela, esta é a grande diferença entre a luta feminista ocidental e a luta da mulher indígena, que não é só pela mulher, mas pelo direito coletivo. Sendo assim, ela prefere dizer que luta pelo empoderamento da mulher indígena, que por sua vez, luta por todos.

Para Maial, é importante pensar a erotização do corpo da mulher indígena, assim como a violência obstétrica e o machismo em si. Ela lembra que não existem dados sobre a violência obstétrica entre indígenas, ao contrário, por exemplo, do que acontece com a realidade da mulher negra, que já começa a ser documentada – e apresenta resultados alarmantes. A relação entre mulher e saúde é bastante grande, porque é a mulher que cuida da alimentação, a mulher que leva os filhos ao médico e cuida dos parentes doentes. Sendo assim, o protagonismo para pensar políticas de saúde é essencial. “As políticas precisam ser pensadas de baixo para cima”, afirma ela.

Ela faz comparações entre a cultura dos brancos e dos indígenas que tem como paralelo serem machistas e autoritárias. “Hoje vamos ganhando espaço para luta e para fala. Antigamente, a maioria das mulheres ficava na aldeia enquanto os homens mantinham o contato com a cidade, discutindo questões políticas e de território”. Para ela, sair da aldeia para estudar e retornar ao seu povo foi um grande desafio e ainda é. A responsabilidade que ela carrega enquanto indígena graduada dentro de uma secretaria do governo é de garantir justiça para sua etnia e todo povo indígena.

Companheira me ajuda que eu não posso andar só

Todas as falas expressaram sentimentos de união e protagonismo feminino. Cacique Tanoné fez uma fala emocionada sobre o orgulho de ver uma indígena como Maial formada e falando de forma tão eloqüente. Vibrou quando a indígena canadense Uapukun disse que está indo para a universidade também cursar direito no próximo início de ano letivo. A Cacique contou da sua história no nordeste e dos preconceitos e agressões que sofreu.

Depois de chegar em Brasília para tratamento médico, há quase trinta anos, ela resolveu fixar território por aqui. Segundo ela, sem poder dar filhos ao marido, entendeu que precisava partir de sua aldeia. Outra parenta casou-se com seu ex-companheiro. Eles seguem juntos até hoje e ela não buscou outro companheiro. Originalmente de Alagoas, Tanoné vive em uma área conhecida como Terra Indígena do Bananal, no perímetro urbano de Brasília. Desde que chegaram, ela luta para garantir a legalidade da terra e acredita que este dia está chegando.

Finalizando a conversa, a pedagoga Maria Pereira pediu pela união de todos os povos, indígenas e não indígenas, na busca pelo desenvolvimento humano. Destacou a liberdade da criança indígena, seres verdadeiramente brincantes e como esse conhecimento específico da práxis, de como fazer, poderia ser compartilhado para melhorar a educação brasileira.

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