O Etnoturismo de base comunitária com orientação indigienista

Atualizado: Set 25

Por Fernando Schiavini



As comunidades indígenas enfrentam grandes dificuldades para continuarem a viver “segundo seus costumes, crenças e tradições” conforme diz os artigos 231 da Constituição Federal.


Assim que entram em contato com a sociedade envolvente, vários fatores culturais, mantidos há milênios, começam a ser modificados de forma rápida. Isso ocorre principalmente pela fixação definitiva de povos que, geralmente, eram nômades e tinham suas culturas baseadas nessa mobilidade. Ao terem seus territórios delimitados, iniciam processos de sedentarização que podem durar séculos, até que se consolidem.


Os processos de fixação definitiva dessas comunidades trazem, gradativamente, necessidades de bens de consumo industrializados, que são incorporados naturalmente aos hábitos e costumes, tornando-as parcialmente dependentes do mercado. Isso inclui itens alimentares, novos meios de transporte, vestuário, aparelhos de comunicação modernos (celulares, computadores, televisores), medicamentos e até produtos incorporados aos processos ritualísticos das etnias.


Os povos indígenas, através de suas comunidades e organizações, contando, eventualmente, com a colaboração de entidades e pessoas apoiadoras da causa indígena, tem procurado desenvolver projetos que apoiem as comunidades a obterem esses itens de consumo e serviços. A mediação “política” entre as duas sociedades e a busca incessante pela melhoria de vida dessas populações, de forma que elas interajam de formas culturalmente próprias, dignas e autônomas, com chamada “sociedade nacional” são as principais tarefas dos indigenistas.


Não se trata de tarefa fácil. Como sabemos, o sistema capitalista tem como uma de suas bases de sustentação, o lucro decorrente do comércio de bens e serviços. As comunidades indígenas, por sua vez, formam sociedades tribais antigas, onde não existem o comércio e os conceitos de lucro e acumulação. Elas procuram obter os itens necessários à subsistência. O que é produzido como “excedente”, é utilizado para sustentar o sistema ritualístico de cada comunidade.


Não é tarefa simples, por exemplo, introduzir em uma comunidade indígena, máquinas agrícolas para que aumente sua produção e tenha alimentos para si e para comercializar. Primeiro, porque essa tecnologia demanda especializações e manutenções complexas que, por sua vez, exigem capital e sua competente administração. Por outro lado, os povos indígenas não conseguem obter financiamentos bancários para essas atividades, pois não podem dar como garantia as “suas” terras, que formalmente são da União.


Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Socioambiental (ISA), os próprios aspectos das culturas indígenas, com destaque para o artesanato, são as fontes mais naturais de geração de renda a essas comunidades.


De fato, sabemos que as culturas indígenas despertam enorme interesse nas pessoas que habitam o mundo urbano, exatamente por se diferenciarem completamente dos ambientes que habitam e possuírem organizações diferentes do sistema onde essas pessoas estão inseridas.


Assim, o etnoturismo desponta, atualmente, como uma das melhores fontes de geração de renda e de inserção social, com dignidade, às comunidades indígenas.


No momento, as próprias comunidades indígenas estão despertando para o potencial do etnoturismo para geração de renda às suas comunidades e buscando o consórcio com instituições e empresas, para que seja implementado.


A FUNAI emitiu a Instrução Normativa nº 003-2015, que visa regulamentar as parcerias entre comunidades e organizações indígenas com empresas de turismo, que possuem a expertise e a estrutura adequada para comercializar e transportar os visitantes até as aldeias indígenas.


Obviamente, para que as comunidades não sejam prejudicadas, há que se implantar uma ética para a prática do etnoturismo, que conjugue o respeito às tradições indígenas e a contribuição financeira justa às suas comunidades. É necessário também que essas comunidades sejam totalmente informadas sobre os conceitos que norteiam o turismo em geral e o etnoturismo em particular, de forma que possam extrair o máximo de benefícios da atividade, sem se descaracterizarem enquanto culturas diferenciadas.


O turismo de base comunitária procura inserir as comunidades indígenas em todas as fases do processo de visitação às suas comunidades, para que elas, gradativamente assumam o máximo possível do controle dessas atividades. A orientação indigenista se dá em dois momentos: durante a visitação, quando o visitante deverá ser informado, não somente dos aspectos culturais da etnia, mas também das suas dificuldades de subsistência, numa tentativa de atrair aliados para a causa indígena, e em orientações às próprias comunidades, de como gerenciar os recursos obtidos pela atividade turística e como aplicá-lo corretamente, na busca de soluções para esses mesmos problemas.


Para as pessoas que se interessam, por alguma razão, em conhecer mais profundamente essas tradições, o etnoturismo torna-se uma ótima opção, pois, além da vivência dirigida com outras formas de organização comunitária, tecnologias, conhecimentos antigos e processos ritualísticos, estarão apoiando a manutenção das culturas indígenas que, além de representarem as mais profundas raízes da humanidade, preservam cerca de 14% do território brasileiro.


Conheça mais sobre o autor em: www.fernandoschiavini.com.br/sobreoautor/

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